revisitando sérgio goldenberg: a propósito de bendito fruto

Ana Paula Alves Ribeiro.

IMS/UERJ.

Introdução

Lançado em circuito nacional em 2005, Bendito fruto, primeiro filme de ficção de Sergio Goldenberg surpreende por traçar com tanto lirismo e humor um retrato do cotidiano dos moradores do Rio de Janeiro. A partir de um triângulo amoroso formado por uma viúva do interior paulista e um cabeleireiro carioca – brancos – e a empregada doméstica deste último, negra, o filme Bendito Fruto, de Sergio Goldenberg, revela muito da identidade brasileira e das nossas relações cotidianas. A partir do salão de beleza de Edgar, o Rio de Janeiro se desdobra na tela: as relações raciais e de gênero transpassam as outras relações implícitas: patrão/empregada doméstica, lar/trabalho, casa/rua, família/amigos, ficção/realidade, Baixada Fluminense – Zona Sul – Europa. No filme de Goldenberg todos têm o seu lugar e transitam pelos espaços possíveis. O cineasta Sergio Goldenberg, dialoga com o jornalismo e flerta com a antropologia, ao ouvir e aprofundar as falas de suas personagens. De fato, Bendito Fruto é uma interessante colcha de retalhos do cotidiano do próprio diretor e de seus trabalhos anteriores, como os documentários As meninas do Rio de 1991, Profissão: Doméstica de 1993, Funk Rio de 1994 e Chocolate de 1997.

 

Bendito fruto e a dinâmica das relações sociais brasileiras

Como um acontecimento trivial pode mudar completamente a perspectiva e a relação das pessoas? É a partir dessa premissa que Sergio Goldenberg, em seu primeiro filme de ficção, trata da relação estabelecida entre Edgar e Maria, patrão e empregada doméstica na Zona Sul carioca, que têm suas vidas transformadas a partir da explosão de um duto de gás.

Estamos nos anos 2000, e Edgar é um boa praça e bonachão dono de salão de beleza, localizado em Botafogo, no Rio de Janeiro. Vive em um apartamento decorado com elementos de outras décadas e de alguma forma, ele mesmo poderia estar no anos 1970 ou 1980. Sua vida é pautada pelo passado dos pais: não casou, mora no apartamento que era deles, cuja decoração foi mantida, trabalha em um tradicional salão do bairro, que herdou do pai; e dos pais também ‘herdou’ a filha da empregada, agora sua empregada doméstica, Maria.

Edgar e Maria cresceram juntos, ‘como irmãos,’ e agora Maria cuida de Edgar, das coisas e da casa dele com uma grande intimidade: é ela quem cuida das compras e decide o que Edgar vai comer; ela assiste com ele os programas televisivos e tem como amigas as funcionárias do salão de Edgar. Mas é com a explosão de um duto de gás, lançando a tampa de um bueiro pelos ares, que tudo se transforma e a relação entre Edgar e Maria se modificará com a repentina e inesperada introdução de uma terceira pessoa na vida destes dois personagens.

Virgínia, amiga de infância e antiga paquera de Edgar está em um táxi quando a explosão do bueiro atinge a ela e ao motorista. Viúva, ela está na cidade a passeio, sem  ninguém mais a quem possa ligar, e então se lembra de Edgar. Por trabalhar no mesmo endereço que seu pai, décadas antes, Edgar é prontamente localizado e fica encantado ao ver seu amor de juventude, agora viúva, e pronta a relembrar o passado. Quando Virgínia sai do hospital, Edgar, solícito, a convida a ficar em sua casa. Então, o imbróglio está formado: debaixo de um teto atulhado de passado, encontram-se Edgar, seu antigo amor Virgínia e Maria, seu romance quase escondido.

 

Brasilidade, cor, gênero e desigualdades

A partir daí, começamos a observar como o filme de Goldenberg mexe com lugares pré-estabelecidos na sociedade brasileira e tem alguns elementos que nos fazem refletir de forma bastante sutil sobre questões fundamentais da nossa realidade; justo por não ser um filme sobre os problemas relacionados à violência na cidade ou sua questão sócio-econômica conectada às desigualdades raciais. As personagens, apesar de terem espaços que a princípio estariam demarcados, transitam entre diversos ambientes,  estabelecendo fronteiras ambíguas, na medida em que não são bons ou maus, certos ou errados, amigos ou inimigos incondicionais. Seus conflitos são humanos; enfim, eles mentem, traem, amam, têm esperanças, decepcionam-se, alegram-se, vivem. São personagens consolidados no imaginário da população, porque é possível para o expectador reconhecê-los como tais.

Temos um patrão que dorme com a empregada e é, ao mesmo tempo, amigo dela. Uma viúva generosa e amiga que tem um repertório de preconceitos raciais e de classe. Assim, quando escutamos Virgínia afirmar que não é para dar confiança à empregada ou que o crioulinho é muito bonitinho, não percebemos na personagem um racismo explícito, mas sim um certo incômodo velado. Esses dois personagens, Vírginia e Edgar, por si sós, já revelam um pouco do país ‘sem preconceito’ que teimamos em naturalizar, e Goldenberg inteligentemente joga com isso. Estamos falando de instituições quase nacionais: a do patrão que tira a virgindade da empregada, mas não assume necessariamente uma relação e quase chega a ter vergonha dela por ela ser negra. Ao mesmo tempo, valoriza-a pelos cuidados incondicionais, de como cuida da sua casa e da sua comida.

O triângulo amoroso tem uma platéia cativa, que vê, de dentro do salão, o desenrolar das ações. É ali, naquele salão de passagem, de encontro e de compartilhamento, que conhecemos um pouco mais da visão que esta platéia tem dos protagonistas da história: Edgar tem uma amante negra, que ele nem esconde, nem assume. Virgínia, recém-apresentada à trama, é a viúva de bem com a vida. Sem filhos ou compromissos urgentes, diverte-se em viagens. Generosa, estaria pronta a encontrar um novo amor. E Maria, esta precisaria se afirmar como pessoa e mulher para que Edgar passasse a considerá-la.

Da platéia temos Telma, a cabeleira solitária que quer um amor a qualquer custo. Romântica e colecionadora de ursos de pelúcia, ela é um misto de pé no chão e cabeça nas nuvens, funcionando como a consciência do pessoal do salão: mãezona, conselheira, é quem verbaliza as alternativas que Maria, e em menor grau Choquita, têm na vida, sem pensar muito nas dela própria. Choquita, inspirada nas meninas retratadas por Goldenberg em Funk Rio, é a jovem apaixonada e inconseqüente, que quer se dar bem e faz tudo por seu namorado. Entretanto, ela é ao mesmo tempo doce, carinhosa e atrapalhada. Já Maria é, concomitantemente, platéia de sua própria vida e protagonista de sua novela: é a empregada doméstica ‘herdada’ pela família, sua mãe fora empregada doméstica e provavelmente outras mulheres de sua família tinham desempenhado a mesma função antes. Negra, com uma casa na Baixada Fluminense, fora do município do Rio de Janeiro, mas na prática mora no apartamento de Edgar em Botafogo, área nobre da cidade. Naquele espaço privado, ela é a verdadeira dona de casa: decide cardápio, faz compras, vê novelas com o ‘patrão’/‘companheiro.’ Tem um quarto dentro do apartamento de Edgar – o quarto de empregada – mas dorme com ele no quarto que era de seus pais.

É então em Maria que o Brasil aparece em sua forma mais explícita: a das pessoas que vivem quase à margem, aquelas que possuem consciência de sua condição, todavia não perdendo sua dignidade pessoal. Ao ver que seu relacionamento com Edgar está ameaçado, Maria pega literalmente “suas trouxas” e vai embora. E é a partir dos deslocamentos que Maria e seu filho recém-chegado da Europa fazem entre a Baixada Fluminense (“­mas este lugar não é perigoso?” pergunta um personagem) e a Zona Sul, que a veia documentarista de Goldenberg emerge.

 

De volta ao começo: preocupações sociais e diálogo com a realidade

Eu estudei cinema, mas comecei a trabalhar com TV e vídeo com o Coutinho. Fui assistente dele, foi um pouco quem ajudou a me formar em documentário, em conversar com as pessoas, entendê-las, saber perguntar. E ao mesmo tempo conseguir contar uma história a partir do que elas dão, que permita refletir sobre o conjunto das pessoas daquela camada social, daquele grupo, daquela cidade. Esta é minha trajetória, tem um pouco de militância política, que acaba sempre interferindo. (Ribeiro, Freitas e Souza 161)

 

Em entrevistas, quando do lançamento do filme, Goldenberg apontou para as suas inspirações recorrentes: nascido em Copacabana e morador de Botafogo, o diretor e roteirista nos apresenta um bairro no qual as relações são próximas, reforçadas por laços de solidariedade, já que todos se conhecem há muitos anos. O bairro de Botafogo apresentado pelo filme é quase um subúrbio dada a intimidade que o diretor tem com seu espaço. Morador de Botafogo desde 1998, Goldenberg conheceu os moradores do bairro ainda na década de 1980, enquanto tentava montar um cineclube no morro Santa Marta (“Carioca até o caroço”). Ainda na década de 80 tornou-se assistente do documentarista Eduardo Coutinho, participando de algumas produções, como Fio da Memória (1991). É a partir da década de 1990 que passa a trabalhar mais intensamente com documentários, tendo dirigido naquele período As meninas do Rio, Profissão: Doméstica, Funk Rio e Chocolate e também trabalhado em televisão nos programas da Rede Globo, Brasil Legal e Muvuca, ambos apresentados por Regina Casé.

Nos quatro documentários abordados, a importância do trânsito e do espaço está presente. Em As meninas do Rio temos Claudia, que em 1990/91 tinha 20 anos e um filho. Claudia considerava-se “rueira,” já que não suportava ficar trancada na casa dos outros, trabalhando como empregada doméstica. Filha de porteiro em um bairro da Zona Norte, já tinha saído de seis empregos arrumados por seu pai. Já em Funk, temos meninas da mesma família trabalhando como domésticas, e seu lazer são os bailes de fim de semana. O mesmo tema — mulheres à margem social — ressurge em Profissão: Doméstica, e a invisibilidade da categoria se torna mais evidente. São diversas histórias entrelaçadas de mulheres que cuidam da casa e de filhos de outras. Estas são tratadas como se fossem ‘da família’, o que não impede, entretanto, um distanciamento social. Entre as personagens apresentadas há aquelas que criaram filhos dos outros, e hoje não são procuradas por eles, mesmo sendo chamadas de “segundas mães.” Existem também aquelas que têm seus filhos criados com os dos patrões, mas que não querem o mesmo destino para eles, o sub-emprego. Ainda temos as que não se envolvem, ou tentam não se envolver com as famílias para as quais trabalham, pois percebem a possibilidade de decepção nas relações sociais.

Talvez possamos dizer que as relações entre empregadas domésticas e seus patrões sempre tenham intrigado o diretor. Em entrevista a alunos da UERJ, publicada nos Cadernos de Antropologia e Imagem, em 1998, Goldenberg aponta justamente as ambigüidades da sociedade em que vivemos:

Uma de nossas professoras contou que quando estava na França, passaram Profissão Doméstica. Eram vários professores franceses e três brasileiras. Provocou uma reação nelas e nos colegas franceses [...] pela questão da naturalização da empregada doméstica, todos os dias em casa.

Eu não tinha a menor idéia disso. Eu tô querendo fazer um filme de ficção sobre isso. A relação com a empregada: uma negra, um branco, ela filha da empregada dos pais dele. Criada na casa, uma pessoa carismática.

Ela ficou envergonhada, pois as pessoas perguntavam: "vocês fazem isso?". Até mesmo em sala de aula quando se passa Profissão: Doméstica, fica todo mundo incomodado. "Será que a gente faz isso em casa?". E acaba fazendo, mesmo ... são várias discussões que nunca passam pela nossa cabeça...

A gente faz, mas acho também que nesta questão da empregada, acho que não pode ter uma visão... o europeu falar: "olha que absurdo ter empregada!". Eu acho que é um mercado de trabalho que tem aqui e hoje é muito comum a empregada doméstica ganhar mais do que o marido. Muito comum não, geralmente ganha. Uma diarista ganha R$30,00/dia ela faz R$600,00, R$700,00/mês, o marido é porteiro, ganha R$120,00 [valores de 1998]. É o Brasil, o caminho é outro. Não é achando que o europeu... a tendência do europeu é achar que nossa! Que absurdo! E realmente lá é assim, uma coisa de elite, lá é prá gente muito rica, e aqui não. É prá classe média. (Ribeiro, Freitas e Souza 164)

No lançamento do filme, a realidade prontamente tinha se desenhado como ficção:

Em 1990 fiz um documentário para o [canal francês] Arte sobre domésticas e aquele universo ficou na minha cabeça. Quando me mudei para Botafogo, conheci um vizinho com quem costumava jogar buraco. Ele vivia com sua empregada negra e eu notei que a relação era mais do que profissional. O ponto de partida para o filme foi este casal inter-racial e o resto aconteceu como uma crônica, em que os personagens vão aparecendo aos poucos - diz Goldenberg. (“A surpresa final.”)

São três os outros personagens desta crônica contemporânea: o filho de Maria, o namorado dele e um menino de rua - misto de engraxate e entregador de feira. São estes personagens que fazem as conexões possíveis com as mulheres da trama, e que não passam necessariamente por Edgar.

O engraxate é um personagem eterno das ruas do Rio, mas bem poderia representar qualquer adolescente negro e pobre em busca de sua sobrevivência. É quem afinal cria afinidade com uma Virgínia cada vez mais coadjuvante na vida do jovem. Este personagem marginal ajuda a Virgínia a perder seu distanciamento social, abrindo uma possibilidade para relativização do preconceito social que fazia parte das visões de mundo da viúva.

Já, o filho de Maria, apresenta um elemento a mais para pensarmos as complexas relações de raça, gênero e classe: é mestiço e homossexual. Entretanto, é um “vencedor,” pois trabalha como DJ na Europa e namora um ator famoso de novelas, por quem as personagens femininas suspiram todas as noites. É este filho a quem Maria ama, protege e apóia, mas ao mesmo tempo é quem faz, junto com o namorado, que a mãe rompa o casulo e assuma as rédeas do seu destino e a possibilidade de ser feliz com seu imperfeito amor.

E todos foram felizes? Conciliação entre classe, cor e gênero

Bendito Fruto nos dá uma oportunidade de rir de nossas próprias mazelas. Ao mesmo tempo que é um filme lírico, suave, divertido e sutil, ele mostra a sua força por tratar de temas bem diversos. Em uma sociedade dita democrática e sem preconceitos, estes emergem de forma surpreendente no filme. O preconceito social fica explícito nas falas da simpática Virgínia, um pouco “sem noção,” mas com idéias bem acabadas sobre o lugar “do outro.” O preconceito racial permeia toda história dos nossos protagonistas, enquanto o sexual é assimilado pelo amor materno e pelo lugar que os seus personagens ocupam. Solidão, amor maduro, violência e abandono, estão tão presentes em Bendito Fruto quanto nos outros trabalhos do diretor.

Em conclusão, o conflito intrínseco nas relações sociais não se dilue no filme, mas estas se resolvem na perspectiva de se relativizar o papel do outro naquele universo vivido. Entre o distanciamento trazido pelo preconceito e a convivência intensa de muitos anos, que produziu seus próprios frutos naquele grupo de amigos, o que se preferiu foi investir na cordialidade e no afeto. Neste sentido, Goldenberg rejeita a polarização e investe na mediação dos conflitos sociais na sociedade brasileira.

Obras citadas

Bendito Fruto. Dir. Sergio Goldenberg. Perf. Otávio Augusto, Zezeh Barbosa e Vera Holtz.  2004/5.

As meninas do Rio. Dir. Sergio Goldenberg. 1991.

Funk Rio, de Sergio Goldenberg. 1994.

Lima, Eduardo Souza. “A surpresa final que veio de Botafogo.” Bendito Fruto. http://www.benditofruto.com/home.htm. Accessed: 10/21/2007.

Profissão: Doméstica. Dir. Sergio Goldenberg. 1993.

Ribeiro, Ana Paula, Andréa Freitas and Liliane Souza. “Entrevista com Sergio Goldenberg.” Cadernos de Antropologia e Imagem  1.6 (1998): 161-68.

SImões, Eduardo. “Carioca até o caroço.” O Globo Maio 19 (2005): 1.